Análise sobre o orçamento do Avaí para 2021

Neste texto, realizarei uma breve análise a respeito do orçamento preparado pelo departamento financeiro do Avaí Futebol Clube para o ano de 2021. O orçamento de 2020, utilizado em alguns momentos como base comparativa, foi preparado num cenário sem pandemia, portanto é necessário prudência nas análises que envolvem tal comparação.

O orçamento, instrumento de planejamento das organizações, é elaborado com o intuito de estabelecer diretrizes para a gestão destas em um período futuro (geralmente para o ano subsequente). Deste modo, a partir do orçamento é possível que sejam estimadas entradas e saídas de caixa para o próximo ano. Não é necessário que a organização “acerte” os valores para que o orçamento seja considerado de bom nível, mas sim que o racional por trás de sua elaboração seja razoável. Por exemplo, é possível que uma receita seja estimada de maneira errada e seja concretizada, por puro acaso (surgimento e venda inesperados de um craque da base, por exemplo). De igual modo, é possível que uma receita seja prevista de maneira adequada e não seja realizada por uma intercorrência (lesão de um atleta que seria certamente vendido, por exemplo).

Cabe ressaltar que empresas em geral não divulgam para o público externo seus orçamentos, tendo em vista que é um documento de planejamento interno. O documento, por ter um caráter altamente preditivo, não é objeto de auditoria externa, tampouco é balizado por normas contábeis específicas. Entretanto, com a sua publicação para o público externo, é razoável que seja objeto de avaliação. Não é admissível, ademais, que o documento se apoie em seu caráter puramente subjetivo para justificar sua eventual elaboração sem bases sólidas. A formulação de um orçamento com projeção de cenários faz parte do processo de planejamento, o qual é importante para alicerçar a execução dos planos no período seguinte.

Portanto, nesta postagem analisarei a viabilidade das entradas e saídas de recursos com as informações disponibilizadas no site oficial do clube para o público em geral. Saliento que o clube disponibilizou para os conselheiros o documento com antecedência, a partir de petição formulada pelo Movimento Nosso Avaí, para que a discussão fosse mais produtiva. Deixo claro que não participei da reunião do Conselho, portanto é possível que algum ponto que não ficou claro para mim tenha sido esclarecido na reunião. Entretanto, para elaborar esta análise, conversei previamente com alguns conselheiros, que esclareceram alguns pontos abordados na reunião. Mesmo assim, incentivo a participação de todos os leitores na caixa de comentários, para que tragam esclarecimentos ou opiniões. Havendo novas informações, farei alterações no texto, para incluí-las. 

Geral

Da leitura do relatório, os primeiros números que saltam aos olhos referem-se aos totais de receitas e despesas estimados para o ano de 2021. O clube prevê aproximadamente R$ 39 milhões, tanto para receitas como despesas, resultando em saldo positivo de aproximadamente R$ 200 mil. A partir deste cenário podemos inferir que o orçamento do clube pressupõe que o acesso à Série A não acontecerá (no momento da apresentação do orçamento, o clube ainda disputava a Série B com chance de conquistar o acesso). Internamente, entretanto, acredito que o clube trabalhava com as duas possibilidades (acesso à Série A e manutenção na Série B), sendo duas peças orçamentárias distintas.

Finalmente, destaco que o orçamento foi feito a partir de níveis muito próximos entre receitas e despesas, portanto há pouca margem para erros de previsão. Desta forma, cada real de receita estimada praticamente já tem um destino certo. Ademais, necessário salientar que o orçamento deve considerar estimativas razoáveis e que a supervalorização de receitas ou subestimação de despesas não é indicada. A superavaliação de receitas ou subavaliação de despesas faz com que o clube tenha que buscar novas fontes de recursos (empréstimos, por exemplo) caso os cenários projetados não se concretizem. 

Receitas

A primeira receita que analiso é a com a bilheteria dos jogos. O clube estima uma receita inferior (-20%) àquela prevista para o ano de 2020. Entretanto, o orçamento elaborado ao final de 2019 para o ano de 2020 não havia o cenário de pandemia e estádios sem público. Destaco que o Flamengo também estimou entrada de recursos via bilheteria, sendo que prevê que o público voltará ao nível pré-pandemia em abril. O Palmeiras prevê público com 30% da lotação do estádio a partir de julho. O Internacional prevê público com restrições entre março e julho e a partir de julho com capacidade total. O Santos estimou valores iguais ao ano de 2020. Portanto, outros clubes também estimaram receitas com bilheteria considerando ou não queda com relação a 2020.

Deste modo, levando em conta que existe uma incerteza quanto à realização de jogos sem nenhuma restrição da ocupação do estádio (vide outros países) e que, muito provavelmente, somente com vacinação em massa o nível de ocupação voltará ao nível pré-pandemia, avalio que existe um risco considerável para que esta receita não se realize no nível estimado. 

Adicionalmente, a receita com os associados foi estimada com aumento em relação a 2020. Considero que isto está relacionado com a volta do público ao estádio, pois, num cenário sem público, será bastante complexo o clube apresentar aumento (3%) em relação à receita estimada para um cenário pré-pandemia em 2020. Se a manutenção dos associados sem a presença de público já é algo complexo, imagine, então, aumentar o quadro associativo/arrecadação. Assim, considero que há um risco considerável de que esta receita também não seja realizada no nível estimado.

A partir da estimativa da receita com a Copa do Brasil, o clube prevê que chegará até a terceira fase da competição. Com relação às estimativas relacionadas com desempenho esportivo, considero que existem pelo menos três possibilidades. Há um cenário otimista, no qual o clube prevê que o desempenho será superior àquele previsto pela mídia especializada (estimativas realizadas pelo Botafogo para o ano de 2020 em seu orçamento, por exemplo, com previsões até certo ponto irreais). Há a possibilidade do clube estimar um desempenho esportivo condizente com aquele esperado pelo senso comum. Finalmente, é possível prever uma estimativa pessimista do desempenho esportivo (orçamentos elaborados pelo Grêmio nos últimos anos, por exemplo).

Considero que o Avaí estimou receitas para esta rubrica num nível intermediário, pois é razoável imaginar que o clube estará na terceira fase da competição. Entretanto, estimativas relacionadas com o desempenho esportivo do clube estão expostas a uma bola na trave no último minuto, isto é, ao imponderável do futebol. Assim, acredito que a estimativa avaiana foi adequada, mas o clube precisa ter planos claros em caso de não concretização do cenário.

A receita com negociação de atletas, estimada em R$ 15 milhões, representa 38% da receita prevista pelo clube. Saliento que o mesmo valor foi estimado para 2020. No ano de 2020, o clube possivelmente arrecadou o valor previsto com as vendas do zagueiro Gabriel e do atacante Raphinha (por meio do mecanismo de solidariedade). Entretanto, destaco que o cenário para 2021 não é idêntico, pois não parece haver, em um horizonte próximo, nenhum jogador que possa ser vendido e tenha esse potencial de arrecadação. Avalio de maneira similar à receita com bilheteria e com associados. Contudo, esta receita é a mais relevante entre as estimadas pelo clube, o que torna sua avaliação mais significativa. O clube deve formular estratégias no caso de vendas não ocorrerem. Ademais, mesmo que o clube atinja metade do valor estimado, serão necessários mais de R$ 7 milhões para que o saldo seja completado. 

Obs: Mediante conversas com conselheiros que participaram da reunião, fui informado de que essa questão foi levantada. À ocasião, o Vice-Presidente do Avaí destacou que negociações já estão em andamento e a venda do lateral Guga é considerada neste montante. Pessoalmente, não acho adequado depender de receitas de transferências de jogadores dos quais o clube não possui o percentual majoritário na negociação, tendo em vista que o poder decisório não é do Avaí.

Despesas

Com relação às despesas, destaca-se que o clube estima salários e encargos do futebol profissional semelhantes ao ano anterior, com leve aumento. Nas categorias de base, o clube estima aumento de aproximadamente 10% no valor com relação a 2020. O que chama atenção é a rubrica “outros custos” tanto no futebol profissional como nas categorias de base. Somadas, elas representam 10% do total de custos estimados pelo clube. À luz do princípio da transparência, faz-se necessário que o clube divulgue pelo menos quais gastos constam nessas contas mais gerais. O mesmo raciocínio é válido para as despesas gerais (11% da despesa total). É evidente que o clube não precisa destacar o gasto de cada rubrica se ele for insignificante, contudo, apresentar o que consta nessas contas que agregam diversas outras é fundamental.

Os parcelamentos trabalhistas e fiscais consubstanciam-se em saídas de recursos importantes para que o clube se mantenha saudável financeiramente. A adesão e manutenção do clube nestes programas é um mérito relevante da atual gestão, tendo em vista que a dívida do clube consegue ser alongada por um prazo maior e alguns valores de multas e juros são abatidos, reduzindo a dívida total a ser paga.

O valor de pagamento de empréstimos deve estar relacionado com dívida assumida no ano de 2020, possivelmente em função da pandemia, considerando que ao final de 2019 o clube não possuía dívidas com instituições financeiras. É fundamental que o clube divulgue trimestralmente suas demonstrações para que possamos acompanhar qual o valor total da dívida de maneira tempestiva. No atual sistema, somente ficaremos sabendo dessas informações em abril de 2021, com a divulgação das demonstrações anuais.

Conclusão

Finalmente, considero que a elaboração do orçamento do clube apresenta alguns pontos críticos em termos de previsão de receitas. Avalio, a partir das informações disponíveis, que os valores considerados para venda de atletas, bilheteria e arrecadação com associados apresentam risco considerável de não serem realizados em sua totalidade. Destaco que a avaliação que faço é fundamentada em análises de tendência com base em anos anteriores e análises do mercado esportivo de maneira geral. Internamente, o nível informacional é bastante superior ao que possuo. Ademais, em função do caráter preditivo desta demonstração, tanto sua elaboração como as análises possuem grau de subjetividade superior em relação a outras demonstrações (Balanço Patrimonial e Demonstração do Resultado, por exemplo). 

Adicionalmente, alguns custos carecem de transparência para permitir melhor avaliação. Orçamentos elaborados por outros clubes (Fortaleza, por exemplo) trazem um nível de detalhamento bastante superior e que pode servir como modelo para que o Avaí seja mais transparente. Por outro lado, deve ser valorizada a iniciativa do clube de disponibilizar previamente o documento, a partir de petição organizada pelo Movimento Nosso Avaí. Tal situação deve ser observada nas oportunidades futuras e se estender para a apresentação das demonstrações contábeis em abril. Ademais, seria relevante que o clube apresentasse no mês de maio a demonstração do resultado e o balanço patrimonial referente ao primeiro trimestre de 2021. Assim, poderíamos acompanhar de forma mais tempestiva as informações do clube.

E tu, qual tua opinião a respeito da publicação do orçamento do Avaí. Consideras adequado? Não compreendeste alguma receita ou custo? Manifeste-se nos comentários com  a tua opinião.

Publicado por Fábio Minatto

Doutorando, mestre e graduado em contabilidade na Universidade Federal de Santa Catarina.

9 comentários em “Análise sobre o orçamento do Avaí para 2021

  1. No meu entendimento, o ano de 2021 será muito instável para previsões por todas as pendências que se apresentam (vacinação, resposta do organismo humano, recuperação, etc. etc.). De uma maneira geral considero que o termo Orçamento deva, desde que possível, ser definido em espaços de tempo de curta duração. Do contrário poderemos ser pegos como diziam os mais antigos ” de calças curtas “.
    De toda maneira será um ano em que as previsões orçamentárias devam ser feitas com a maior cautela possível, sem nenhuma possibilidade de achismos ou adivinhações!

    1. Grato pelo comentário, Luiz!
      Os pontos levantados por ti são bastante pertinentes
      Creio que o clube trabalhe com projeções mensais de fluxos de caixa (que não são aquelas divulgadas no orçamento), tendo em vista que há meses com maior entrada de recursos do que outros
      E concordo quanto a cautela na elaboração do orçamento. Superestimar receitas ou subestimar despesas é contraindicado!

  2. Excelente postagem.
    Considero as receitas superdimensionadas especialmente na questão dos atletas e da Copa do Brasil. Até entendo que deve se estar considerando a venda dos atletas do sub-23 (excelente campanha), mas eles seriam de grande valia para um bom enxugamento das despesas e os gastos desnecessários com contratações esdrúxulas que vem se repetindo nos últimos anos.
    É estranho que as notícias indiquem que o Avaí recebeu pouco menos de 10 milhões de reais pelo Raphinha e pelo Gabriel e nesse ano considere 15 milhões de reais por causa do Guga, que anda meio queimado com a torcida do AtlMG.
    A Copa do Brasil, a meu ver, ta superdimensionada. Desde 2013 foram 8 edições consecutivas com participação do Avaí. Não atingiu a 3ª fase em cinco oportunidades (anos de 2013, 2015, 2016, 2017 e 2020). Antes de 2013 foram as excelentes campanhas de 2010 e 2011.
    E tirando pelas declarações do Presidente e o ano de 2020 fechando na estica, nenhum torcedor espera um elenco com nomes de peso como foi esse anos, até porque os jogadores de peso (no sentido massa corporal) tem uns contratos bem longos.
    Em resumo, Avaí passou BEM longe do princípio da prudência pra forçar um superávit pra 2021.

    1. Grato pelo comentário, Guilherme!
      Concordo com suas avaliações, muito pertinentes
      Acrescento que a estratégia mais adequada para destinar o montante principal de venda de atletas é sanar dívidas e reinvestir nas categorias de base
      Assim o clube entra num ciclo financeiro virtuoso que possivelmente afetará o desempenho esportivo
      A partir do orçamento, entretanto, percebe-se que boa parte deste recurso irá para pagamento de salários.

  3. Um cenário um tanto quanto otimista para 2021,alguns valores e percentuais não tão detalhados, como bom Avaiano, é esperar que realmente seja um bom ano de receitas para oclube.

    1. Grato pelo comentário, Fernando!
      Concordo com você
      O clube precisa tornar-se mais transparente em sua apresentação de relatórios
      E torceremos juntos para que o clube arrecade o que foi orçado!

  4. Olá, realmente uma peça orçamentária bastante justa, praticamente sem nenhuma margem para erros. Concordo que o cenário de receitas parece um pouco otimista demais, até pelo histórico deste ano, onde as contas não estão fechando, mas sendo relativizada pela pandemia. Quanto as despesas, aí sim entendo que o clube poderia ser um pouco mais conservador, tem que apertar um pouco mais o cinto, para que haja alguma folga para imprevistos. Mais uma vez, parabéns pelo trabalho, belíssima análise. Aproveito para perguntar, o conselheiros tem acesso ao fluxo de caixa do clube? Sei que é um documento interno, mas ele ajuda muito na compreensão do setor financeiro do clube. Abraço.

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