Patrimônio histórico, um investimento para o futuro

No Brasil, muitos dos que se aventuram a escrever sobre a história dos clubes se deparam com a dificuldade de encontrar arquivos organizados. As pesquisas são feitas em espaços alternativos, pouco se encontra dentro dos clubes, habituados a guardarem apenas seus troféus. Quase nenhum outro tipo de documentação é preservada oficialmente. Fotos, vídeos, clipagens de notícias, camisas, documentação administrativa. A maior parte deste patrimônio some com o passar do tempo, pouco é preservado, organizado, disponibilizado e valorizado. 

Com o Avaí não é diferente. Os principais guardiões de sua memória foram torcedores como Osny Meira, José Carlos Cardoso, Adalberto Klüser, Spyros Diamantaras, entre outros. Quando o clube necessita de informações para alguma ação pontual, resta recorrer aos torcedores. 

Mas, por que isso é tão problemático? Quais os benefícios que o reconhecimento e a valorização da história institucional podem trazer para um clube de futebol como o Avaí, que chegou ao século XXI consolidado como um dos 30 maiores do país?

  • Projetos que tratam da memória institucional organizam e disponibilizam informações tanto para uso do próprio clube (contratos antigos para assuntos judiciais, cobrança de mecanismo de solidariedade, informações para se basear ações sociais, de marketing, licenciamentos, comunicação…) quanto para as comunidades externas (torcedores, pesquisadores, turistas…). Ter uma gestão organizacional dos seus documentos aumenta a eficácia para a tomada de decisões estratégicas, para a produção de conhecimento e para a transparência de suas ações. 
  • Conhecer a sua história ajuda a criar identidade(s) para o clube, situa-o em seu tempo, em seu meio social e cultural. Quando a bola não entra, quando as contratações não surtem efeito, quando as desclassificações em torneios se acumulam e tudo parece perdido, é a história e a memória dos torcedores com relação aos seus clubes que fazem com que ele continue amando e se relacionando com a instituição. Torcedor não é cliente, não é consumidor. Torcedor é uma categoria distinta que lida com valores simbólicos. Memória e história são chaves de leitura que ajudam a conhecer quem são os torcedores e por que o clube os seduz. O clube é uma entidade que os representa. Um clube de futebol popular como o Avaí representa as aspirações de suas comunidades de torcedores. Quando alguém passa a torcer para um clube, ele delega as suas aspirações, ele concede à instituição o poder de representá-lo. Há um engajamento do público no futebol, uma adesão mediada por laços de identificação individual e coletiva que não permitem que o torcedor seja tratado como um mero cliente que compra um ingresso para o cinema. Conhecer a sua história, a história dos seus torcedores, dessa relação que envolve estética, emoção e identificação, permite que o clube desenvolva ações que alimentem e correspondam a todo esse investimento feito pela torcida.
  • Um clube que se afasta da torcida decreta a sua morte. Há uma lenta e gradual curva de indiferença se formando que rompe com essa cadeia de investimentos feita pelos torcedores no clube. Uma torcida que não se renova compromete o futuro da instituição. É preciso lembrar, constantemente, as razões de se torcer pelo Avaí, por que os torcedores não abandonam o clube quando ele perde uma Recopa para o Brusque na Ressacada, por que os pais, avós, tios, amigos apresentam esse clube para seus filhos, netos, sobrinhos. O clube deve olhar mais para as arquibancadas, para as redes sociais, para os sofás de casa, para qualquer lugar em que os torcedores estiverem e não apenas para dentro de campo ou dentro dos seus muros. Que futuro terá um clube de futebol que se volta apenas para seus dirigentes e funcionários? É preciso ocupar todos os espaços, se fazer presente nas comunidades, nas festas, nos eventos locais, no bingo da associação do bairro, na feira de rua, nos eventos turísticos, nos momentos de encontro da cidade com o seu povo. O Avaí não deve estar apenas no excepcional, mas, especialmente, se fazer presente no trivial, no comum, no caseiro, no dia a dia. É preciso ocupar e construir lugares de memória, desenvolver ações educativas informais que continuamente façam lembrar que este é o Avaí e esta é nossa casa. É necessário pensar o futebol como mercado de bens simbólicos e isso pressupõe oferta e demanda. É preciso oferecer e alimentar diariamente a identificação com o clube. Não há como fazer isso sem conhecer a sua história e as suas memórias. Dedicar-se à história do clube não é viver de passado, mas construir um futuro.
  • Um clube de futebol é uma entidade concreta, com CNPJ (alguns com mais de um…), com contratos, papeis e chuteiras. Mas, ele é também uma comunidade imaginada. Quando um jogador entra em campo ele veste uma camisa que carrega uma trajetória quase centenária. A performance de cada jogador, técnico, dirigente, segurança, porteiro, atendente de secretaria deve levar em consideração essa representação do clube, essa identificação duradoura, quase sagrada. Cada funcionário, cada nova contratação de atleta, cada garoto que chega na base deve ser orientado sobre o que é o Avaí e o que se espera de sua performance. Deve ser feita uma imersão, um batismo, um rito de iniciação nos valores dessa comunidade imaginada, nos códigos que no pertencimento a um sistema de relações. É o time da raça, é o time do mangue, é povo, é gente, é o clube “que faz coisas” e para o qual não existe o impossível, deve ser um clube inclusivo, diverso, de todos e todas e para todos e todas. A avaianidade deve ser uma política de clube. E uma avaianidade é construída com uma mistura de dados factuais – histórias de jogos, gols, artilheiros, estatísticas – e com a construção de uma história sentimental, em que questões suscitadas pelo imaginário do clube se atualizem constantemente. Um memorial, museu ou um centro de memória que não seja inerte, mas vivo e em constante atividade tem um papel fundamental na valorização dessa avaianidade.

A questão financeira geralmente é apontada como o principal entrave para que o clube faça investimentos nessa área. Mas, vamos colocar na ponta do lápis: com menos de 50% do que se gasta num único mês de salário de uma contratação de custo benefício duvidosa – como um medalhão semi-aposentado, por exemplo – é possível tirar essas ideias do papel e fazer valer o que está escrito no estatuto. A sede do Avaí está numa cidade cheia de boas universidades. A partir do momento que o Avaí tiver esse espaços organizado, é possível fazer projetos e parcerias nas mais variadas áreas, há cursos de história, arquivologia, museologia, pedagogia, etc, com professores qualificados e jovens estudantes com ideias novas, ávidos por trabalharem em projetos de pesquisa e extensão ao custo de bolsas estudantis. 

Tivemos alguns avanços nos últimos anos: o estatuto atualmente em vigor é o primeiro a reconhecer formalmente a existência do patrimônio histórico e o dever do clube de preservar a sua documentação e valorizar a sua história, para além dos troféus (artigos 10 e 11). O atual presidente do conselho deliberativo, Spyros Diamantaras,  muito sensível ao tema por ser ele mesmo um pesquisador, está articulando junto com conselheiros e a direção executiva a organização de um espaço adequado – um centro de documentação e memória, um arquivo histórico, um memorial ampliado, o que for possível dentro do orçamento do clube – e a implantação de uma política de gestão documental, o que seria um passo fundamental para se atender às exigências estabelecidas pelo estatuto e uma conquista importante para um clube às portas de completar o seu primeiro centenário.

A trajetória avaiana se confunde com a história do futebol em Santa Catarina, da própria cidade e com a história de vida de seus torcedores e torcedoras. Valorizar a sua história através da conservação de sua documentação e da execução de ações que a celebre e a divulgue não fará com que surja da noite para o dia uma nova fonte de renda milionária na venda de livros ou no licenciamento de artigos – embora isso seja uma fonte de renda alternativa importante – mas, colaborará para que se mantenha uma comunidade interessada em se dedicar e se relacionar com o Avaí.

Publicado por Felipe Matos

Doutor em História pela UFSC, colaborador do Memória Avaiana

3 comentários em “Patrimônio histórico, um investimento para o futuro

  1. Muito bom texto, abordando várias facetas de como se forma a ¨paixão do torcedor¨. Realmente, o torcedor vem antes do sócio, porque ele se forma na identificação das cores, do estilo de jogo, da empatia com o clube. Não é uma paixão passageira, pelo contrário, é para a vida toda!
    Não tem preço, nada a pode substituir e deve ser estimulada, preservada, porque ela é o coração, as veias por onde escorre o sangue do amor pela instituição ¨Avaí¨. Tudo que for possível ser feito no sentido de preservar este amor, esta paixão deve ser posto em prática, porque do contrário o clube não crescerá, pelo contrário, se perderá na sua história.

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