Análise sobre as demonstrações contábeis de 2021

Na sexta-feira, dia 29/04, o Avaí disponibilizou aos seus conselheiros as demonstrações contábeis do ano de 2021, bem como o respectivo relatório de auditoria e parecer do Conselho Fiscal, para que o assunto seja votado na reunião do dia 03/05. Essa disponibilização prévia das contas, aliás, aconteceu pela primeira vez na história do clube, graças ao novo Estatuto, que incluiu várias modificações defendidas pelo Movimento Nosso Avaí.

Resumidamente, o ano de 2021, sob o viés econômico-financeiro, foi calamitoso. Houve prejuízo superior a R$ 34 milhões, extrapolamento das despesas orçadas (sem autorização prévia do Conselho Deliberativo), aumento do endividamento de curto e longo prazo, antecipação de receitas do ano seguinte e, para coroar, inadimplência de despesas correntes e de parcelamentos tributários e trabalhistas, com consequências desastrosas para o curto e longo prazo do clube.

Neste texto, faremos alguns apontamentos que consideramos relevantes para compreender quais as consequências de implementar práticas de gestão que desconsideram os limites orçamentários. 

Em dezembro de 2020, o orçamento para 2021 foi aprovado pelo Conselho Deliberativo. Nele, constava um limite para as despesas de R$ 39.001.528 tendo como base receitas de R$ 39.197.550. No mundo real, porém, enfrentamos o pior cenário: arrecadamos somente R$ 25.303.151 e nossas despesas superaram, e muito, o limite orçado: R$ 59.770.843.

A pandemia, volta e meia utilizada como muleta para decisões irresponsáveis,  não pode ser apontada como um fator relevante para chegarmos a estes valores. Nossa principal despesa, a remuneração dos atletas profissionais, não é variável e pode ser facilmente planejada e estimada, já que não é influenciada por fatores externos. Quando fizemos as contratações dos atletas, a gestão sabia o quanto o clube estava comprometendo o orçamento. Por outro lado, não houve redução acentuada de patrocínios e mensalidade dos sócios. A principal diferença foi a queda expressiva na venda dos atletas. Mas esta situação era conhecida, já que no ano de 2020 tivemos uma venda extraordinária do zagueiro Gabriel. Portanto, não podemos atribuir a fatores externos, como a pandemia, para o nível de déficit alcançado, mas sim a nossa folha salarial.

Além disso, algumas receitas de 2022 foram antecipadas pela gestão passada, ainda em 2021, para reduzir o nível dos salários atrasados. Estas antecipações não estão contempladas na demonstração do resultado, mas influenciam a gestão atual do Avaí. Por exemplo, valores referentes à cota da Copa do Brasil de 2022 já tinham sido antecipados e não poderão ser utilizados para investimentos no departamento de futebol. Além disso, despesas de 2021 devem ser pagas em 2022, como o salário dos atletas. Novamente, este é o pior cenário, já que nossas receitas já estão comprometidas com antecipações e temos despesas relevantes do referentes ao ano de 2021 ainda para pagar.

Outro fator importante, que compromete gestões futuras, foi a antecipação de valores recebíveis do zagueiro Gabriel. O contrato original previa que os valores fossem pagos em 2020, 2021, 2022 e 2023. Entretanto, em 2021, houve antecipação da totalidade dos valores de 2022 e 2023. Para conseguir essa antecipação, a gestão aceitou reduzir o valor ao qual faria jus caso o contrato original fosse cumprido – operação que custou aproximadamente R$ 4 milhões de reais, a título de juros. Portanto, valores que poderiam contribuir para o departamento de futebol de 2022 e 2023 foram comprometidos para pagamentos de salários atrasados em 2021.

Além de não pagarmos nossos atletas, outros pagamentos permaneceram inadimplidos. Parcelamentos tributários, PROFUT e PERT por exemplo, não foram pagos. Destaca-se que estes parcelamentos foram aderidos justamente por reduzir sobremaneira juros e multas. Permanecer em dia com eles é extremamente relevante para que não haja um aumento expressivo de nossas dívidas com o governo. A escolha por não pagar estes parcelamentos, além de comprometer recursos futuros que poderiam ser empregados no departamento de futebol, pode acarretar o aumento de nossas dívidas. Cabe ressaltar que o nível elevado de endividamento compromete recursos que poderiam ser destinados para o departamento de futebol.

O relatório da auditoria remete a problemas nos controles internos da organização, inclusive abstendo de opinar sobre as demonstrações. Portanto, reprovar as contas pode ser, novamente, um alerta que a situação atual do clube demanda políticas de compliance e governança para dirimir práticas inadequadas e maximizar os recursos no departamento de futebol, principal atividade do clube.

Pode-se justificar, com base no acesso à primeira divisão, que o planejamento deu certo. Entretanto, proponho uma reflexão. Se já está difícil honrar as despesas em aberto, o cenário seria praticamente impossível pagar com base em receitas do nível da série B. E se a bola do Renato não entrasse, qual seria o planejamento para o pagamento de nossas obrigações?

Publicado por Mário Filippe de Souza

Engenheiro Civil pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e empresário. Ex-colunista da Paixão Azurra, do Jornal Hora de Santa Catarina, de 2016 a 2018.

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