Do planejamento estratégico à gestão estratégica: Para onde o Avaí está indo e como chegaremos lá?

Eu costumo dizer que a gestão move o mundo!

Você provavelmente nasceu em uma maternidade, estudou em, pelo menos, uma escola, frequentou uma igreja, participou de algum evento, jogou futebol com os amigos, almoçou em algum restaurante.

Uma gestão ineficiente em algum desses lugares fez você ter mais ou menos dificuldade para consumir o objetivo daquela organização.

Sim, todos os casos que citei acima são casos de organização, independente de ser uma empresa ou não. E é exatamente aqui que eu queria chegar.

O conceito básico de organização é “duas ou mais pessoas que trabalham juntas em um determinado objetivo em comum”. Esse objetivo pode ser o lucro, como é o caso da maioria das empresas, mas pode ir muito além disso, como é o caso das ONGs, do esforço de um grupo de amigos que preparou uma festa surpresa para alguém ou de um clube de futebol.

Percebe que em todos esses exemplos os recursos (financeiros, humanos, estruturais, etc.) são importantes, talvez fundamentais, mas o objetivo em comum não necessariamente é o lucro?

E aqui começamos a questionar a gestão e a estratégia do Avaí Futebol Clube: Qual o objetivo em comum do Avaí? Qual o seu propósito? Em resumo: Por que o Avaí existe?

Essa é uma pergunta que grande parte dos empresários que contratam a minha consultoria tem dificuldade em responder. De fato, responder essa questão não é tarefa fácil, mas encontrar essa resposta é o primeiro passo para qualquer processo estratégico sério e consistente.

Como vamos analisar a eficiência da gestão e consistência da estratégia se não entendermos qual o objetivo em comum dessa organização? Parece piada, mas talvez essa tenha sido a principal sacada de todo o meu processo de doutoramento em gestão estratégica, ou seja, começar do início.

Cada vez mais percebo que essa revisão, a partir do propósito, é que destrava os gargalos que dificultam o desempenho das organizações.

Tendo o propósito claro, fica mais fácil definirmos o objetivo do Avaí enquanto organização e focalizar os esforços para isso. Para onde essa organização está indo? Qual a estratégia para chegar lá?

A questão central é que esse objetivo não pode ser sonhado sozinho, ele precisa ser transformado em um Sonho Compartilhado, uma visão de futuro criada por todos, independente do nível hierárquico, da função, da ideologia, se é situação ou oposição. 

É mais ou menos como chamar um Uber: precisamos de um ponto de partida e um ponto de chegada. A cada rua errada que o motorista entra, o aplicativo refaz a rota e direciona, novamente, para o destino pretendido. Todos que estão no carro, estão indo na mesma direção e, obviamente, antes de entrar no carro, todos sabem para onde estão indo.

Com um ponto de partida (Propósito) e com um ponto de chegada (Sonho Compartilhado), fica muito mais nítida a identificação do que precisamos melhorar na gestão. Não adianta querermos ir para o norte, se estamos dirigindo para o leste. Não adianta um Diretor de Futebol contratar um centroavante, se a maior carência do time é um zagueiro de velocidade. Não adianta investir no estádio, se os salários dos funcionários estão atrasados. 

Mais do que isso, não adianta uma Diretoria caminhar para um lado durante 4 anos e outra diretoria assumir depois disso e caminhar para outro. Por isso, compreender quem faz parte da Organização Avaí e definir a Estratégia Global é mais do que importante, é fundamental!

Curiosamente, enquanto estava desenvolvendo esse texto recebi a informação de que o clube passou por um processo de Planejamento Estratégico recentemente e, inclusive, o mapa estratégico está disponível no site (https://www.avai.com.br/novo/planejamento-estrategico/). Eu, um entusiasta do Planejamento Estratégico e da Gestão Estratégica, mestre e doutor nessa área, escritor de livros e artigos científicos sobre o tema, pesquisador e implementador dessas práticas enquanto consultor de empresas Brasil afora, de verdade, achei fantástico!

Mas num segundo momento já comecei a questionar tudo que havia escrito anteriormente: Certo, foi feito um planejamento estratégico. Existe um Mapa Estratégico muito “bonito” disponível no site do clube, algumas palavras “bonitas” em cada Objetivo Estratégico, uma estruturação seguindo a lógica do Balanced Score Card… Show!

Mas como foi conduzido esse processo? Quem participou dessas definições? De que forma foi essa participação? Quem de fato foi ouvido? Será que a torcida faz parte dessa Organização chamada Avaí?

Para evitar passar informações não verdadeiras aqui, fiz questão de conversar com diversos Conselheiros para entender como se procedeu esse processo. Fui informado de que suas atuações no Planejamento Estratégico foram resumidas em uma breve explicação, pelo consultor, na reunião em que foi realizada sua aprovação, no dia 21 de dezembro de 2021, juntamente com a aprovação do orçamento anual do clube. 

Portanto, não houve uma apresentação prévia para análise, muito menos participação ativa dos torcedores, no processo de discussão e desenvolvimento do Planejamento Estratégico, que na minha visão é ainda mais importante que o próprio documento final (Plano Estratégico).

Preciso deixar muito claro que esse texto não tem o intuito de criticar o que foi realizado, até porque não tenho informações suficientes para chegar em uma conclusão consistente (o que poderia gerar outras discussões a respeito da falta de transparência do clube, que não é o foco deste texto). Inclusive, a iniciativa de desenvolver um Planejamento Estratégico demonstra, na maioria dos casos, uma tentativa de melhorar a estratégia e a gestão da organização, o que é sempre digno de elogios.

No entanto, como torcedor e “cliente” dessa organização, percebo que está cada vez mais comum o motorista entrar em ruas erradas (o que naturalmente pode acontecer), sem que haja um recálculo da rota. Em um ano resolvemos apostar em um time com muitos jogadores da base, no outro um time extremamente experiente. Em um ano o foco é no Campeonato Brasileiro, no outro na Copa do Brasil, no outro no Campeonato Catarinense. Em um ano investimos em um time completo no início do ano, no outro começamos com um time cheio de jogadores da base para contratar a cereja do bolo após os campeonatos estaduais.

Como está organizado o Avaí hoje? Se formos falar apenas de futebol: Quem contrata, quem não contrata? Qual é a lógica dessa contratação? Passa pela aprovação do técnico ou não?

Vamos sair um pouco do futebol e falar administrativamente: qual a estrutura organizacional do Avaí? Como o clube está organizado para se alcançar esse objetivo? Quais são os indicadores de desempenho? Quem tem papel estratégico? Quem tem papel tático? Quem tem papel operacional?

Um processo de gestão estratégica nos esclareceria todos esses questionamentos, mas, acima de tudo, nos indicaria para onde o Avaí está caminhando, independente de quem esteja conduzindo o clube em um determinado mandato ou técnico em um determinado campeonato.

Afinal, por que o Avaí existe? Para onde ele está indo?

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